Fui educada por aforismos. Sabedor que a distância das idades nos afastaria, por descaminhos, incompatibilidade ou morte, meu pai achou um jeito de meter na minha cabeça suas frases feitas, ferramentas de precisão que eu pudesse usar para torcer os parafusos ou desatar os nós da vida.
Assim, quando eu perguntei a ele se namorava com o primeiro, que gostava de mim a ponto de querer marcar minha testa com um carimbo de noivado, ou se me atirava nos braços do segundo que me acenava com uma aventura, ele respondeu:“Não importa. Fique com um ou com outro, mas não fique com um pé em cada canoa.”.
Cansada de engolir desaforos de um chefe que afiava sua auto-estima na dignidade dos funcionários, comuniquei meu pai que pediria as contas, mandaria o homem às favas e procuraria outra coisa para fazer. Ele me lascou outra locução:
“Faça como a arara, primeiro prenda o bico e depois solte as pernas”. Assim eu fiz. Arranjei outro emprego antes de pedir demissão. E segui esse padrão sempre que pude. Mas logo mais o novo desafio já perdia a graça e sempre há no trabalho alguma coisa que nos apoquente. Quando me viu reclamando, meu pai mandou outro adágio:
“Filha, em todo lugar, urubu é preto”. E é mesmo.
Pai velho e filha menina. Por dentro, camaradas de boteco.
Uma recontada (ou requentada) dele, que sempre penso para refrear os impulsos e frear a língua é: “Tu és senhor das palavras que não pronunciaste e escravo das que escaparam”. Se o dinheiro contado não sobrava para um programa de final de semana, restaurante ou cinema, ele aconselhava:
"Boa romaria faz que em sua casa fica em paz”. E lá ficávamos, em casa. fazendo palavras cruzadas, declamando os poemas que ele escreveu e nunca publicou, cantando as músicas que ele compôs e não foram gravadas. Mas estão registradas. Ainda que na memória e com patente requerida. Já contei para minha filha muito dessa sabedoria. Vou por aí murmurando uma ou outra palavra, antes que mais poeira se assente sobre minha voz.
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terça-feira, 26 de outubro de 2010
terça-feira, 14 de setembro de 2010
Speculum, por Nuria Basker
(PUBLICADO NO FANZINE AMARELLO - Edição 3 - O MEDO)
No meu quarto tem um espelho. Eu olho de frente e, em vez de uma, são duzentas, duzentas e vinte imagens. Vejo as vencedoras e as perdedoras, as belas e as cegas, as certezas e o futuro. Vejo quem eu nem reconheceria. Uma senhora de noventa e sete anos tenta pegar um copo d' água, as mãos finas mal alcançam. As mãos finas são as minhas. Vejo ainda uma criança, loira. Espera. O que meu nariz está fazendo na cara dela? Ai, se eu pego essa menina. E de pensar que uma das duzentas, duzentas e vinte, a pior delas, seria capaz de maltratar uma criança. Lá no fundo estão a enfermeira, a policial, a louca e a assistente social. Todas conversam com a que queria maltratar uma criança. Facilmente a dissuadem. A executiva politicamente correta, bem na frente, aplaude. Eu tenho medo de tanta gente. Eu tenho medo das que duvidam de mim. Eu tenho medo das que me incentivam com segundas intenções. Eu tenho medo de mim. Preciso saber falar tantas línguas que até do código masculino preciso entender (umas quarenta, quarenta e cinco imagens são de homens). Eu olho no espelho todo santo dia e nenhuma delas parece morrer. Pelo contrário, algumas acreditam em espíritos, o que só multiplica a multidão multidisciplinar. Duas ou três rainhas (sendo uma africana), guerreiros, Mata Hari, um médico chinês, camponeses,Cleópatra e uma etrusca sonhadora usando brinco de ouro. Tento buscar a escritora, o guru, o anjo decaído, a centrada, a dançarina, a deusa do prazer. Eu tenho medo de não agradar os que tanto gosto. Sei que todos estão lá e mando mensagens. Um beijo, uma piscada, uma oração, um poema, uma dúvida. À noite, apago a luz e meus sonhos continuam conversando com o bendito especulador. O que me vê. O espelho. O que me dá medo.
No meu quarto tem um espelho. Eu olho de frente e, em vez de uma, são duzentas, duzentas e vinte imagens. Vejo as vencedoras e as perdedoras, as belas e as cegas, as certezas e o futuro. Vejo quem eu nem reconheceria. Uma senhora de noventa e sete anos tenta pegar um copo d' água, as mãos finas mal alcançam. As mãos finas são as minhas. Vejo ainda uma criança, loira. Espera. O que meu nariz está fazendo na cara dela? Ai, se eu pego essa menina. E de pensar que uma das duzentas, duzentas e vinte, a pior delas, seria capaz de maltratar uma criança. Lá no fundo estão a enfermeira, a policial, a louca e a assistente social. Todas conversam com a que queria maltratar uma criança. Facilmente a dissuadem. A executiva politicamente correta, bem na frente, aplaude. Eu tenho medo de tanta gente. Eu tenho medo das que duvidam de mim. Eu tenho medo das que me incentivam com segundas intenções. Eu tenho medo de mim. Preciso saber falar tantas línguas que até do código masculino preciso entender (umas quarenta, quarenta e cinco imagens são de homens). Eu olho no espelho todo santo dia e nenhuma delas parece morrer. Pelo contrário, algumas acreditam em espíritos, o que só multiplica a multidão multidisciplinar. Duas ou três rainhas (sendo uma africana), guerreiros, Mata Hari, um médico chinês, camponeses,Cleópatra e uma etrusca sonhadora usando brinco de ouro. Tento buscar a escritora, o guru, o anjo decaído, a centrada, a dançarina, a deusa do prazer. Eu tenho medo de não agradar os que tanto gosto. Sei que todos estão lá e mando mensagens. Um beijo, uma piscada, uma oração, um poema, uma dúvida. À noite, apago a luz e meus sonhos continuam conversando com o bendito especulador. O que me vê. O espelho. O que me dá medo.
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
A Sombra do Silêncio, por Giovanna Vilela
Há pessoas que adoram a solidão. Mas há também as que ignoram estar sós, e estar só quando acompanhada é dor que não acaba mais.
Tenho um prazer quase perverso em assistir a esses mundos. Talvez por estar vendo de fora, do outro lado do muro de silêncio.
Nossas risadas enchiam a mesa redonda de alegria e mostravam a quem se interessasse um universo em movimento, cheio de diversão e cumplicidade. Amigos antigos.
De dentro desse mundo assisti quando um casal entrou no restaurante. A mulher loira tinha os cabelos e o humor descorados pela tristeza e o tempo. Ela olhava para baixo a procura do que ficou para trás talvez. O marido era mais velho embora o físico atlético enganasse um pouco.
Sentaram-se a mesa ao lado e ficou claro para mim que nossa mesa os incomodava.
Não o barulho, as risadas, mas a vida que derramava do nosso lado e escorria para seus pés.
Nenhuma palavra foi dita por eles, apenas alguns olhares carregados de tensão, um tipo de tensão acumulada e sem esperança de acabar.
O garçom se aproximou depois de um sinal feito pelo homem e anotou o pedido. Saiu e deixou o deserto sobre a mesa entre eles. Nesse momento não ouvi mais nossos risos, ouvi os gritos mudos que ecoavam da mesa ao lado.
Vi o dia em que ele a pediu em casamento. Ainda eram jovens. Acreditavam que a vida juntos seria perfeita. Pra ela, seria a chance de escapar dos olhos dos pais, além é claro, do gostinho de vitória entre as amigas, uma nova etapa na vida ,uma nova fase onde a maior preocupação seria o marido, a nova casa e os problemas de trabalho. Do trabalho dele é claro.
Ele deve te-la levado para jantar como hoje. Tirou do bolso uma caixinha enquanto pensou em seu último salário reduzido àquele embrulhinho que agora representava o futuro. Embriagado em parte pelo vinho e um pouco pelo medo. Olhou para os olhos ainda iluminados e passou as mãos pelos cabelos dourados da mulher que amava. Sabia o que queria e esta certeza enchia de força suas decisões e palavras. Ignorou as mesas ao lado, nem ligou para a invasão de olhares.
Entregou a caixinha e junto a promessa de um amor cheio de surpresas e nisso estava certo.
O garçom passou pela nossa mesa com outra bandeja de chopp e uma água para o casal ao lado, ainda mudo.
Lembrei de um soneto decorado na minha adolescência:
"De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
Das mãos espalmadas fez-se o espanto.De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez o drama.De repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente."
Os pratos chegaram e vi quando ela comeu sem sentir sabor, sem saber discernir o ruim do aceitável, o prazer da ilusão. Ele ainda tinha um quê de vida, vida fora dali, onde ainda haviam desafios e prazeres. Não parecia triste, cansado talvez. Decepcionado, mas tinha pressa. Cortou a picanha esperando acabar logo a obrigação do final de semana e voltar à vida, à mesa de bar com os amigos, o futebol, o trabalho.
Pagaram a conta, o preço de suas escolhas. Devolveram meu olhar com desprezo e desculpas por estarem do lado de lá. Partiram, como entraram , sem trocar uma só palavra, sem cruzar os olhares sem tentar mudar.
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